Pensei
ter encontrado em você a segurança que faltava em mim. E então eu
simplesmente vejo que nós somos tão iguais. Nós estamos perdidos,
nesse barco. Por mais claras que sejam as águas desse oceano, nós
não sabemos o que se esconde nas profundezas. Você me diz que está
tudo bem. Eu acredito, enquanto sinto sua mão na minha. Mas quando o
calor da sua pele não mais me aquece, é como se eu fosse afundar em
qualquer momento. Porém, de algum modo, eu tento me convencer que
você sempre vai estar no mesmo barco. Não tenha medo, garoto. Deixa
que terei medo por nós dois. Seja coragem, seja força, seja fé,
seja amor. Seja quem você quer ser e eu vou te amar, sob todas as
circunstâncias.
Valsa e vapor.
18:35 |
Ainda
éramos os mesmos, nessa dança fingida. Nesse vai e vem de ondas. Um
dia essa maré há de me afogar. Enquanto isso, mergulho em seus
lençóis, sinto sua pele na minha e deixo tudo como está. O que
foi, passou. E nós recebemos o presente de mãos abertas, sem pensar
no que será do futuro. Fica aqui. Deixa pra lá. Não sei se amanhã
ainda seremos os mesmos. Pouco importa. Traz café, põe aquela
música e vamos brincar de sorrir. Por hoje. Porque quando você me
abraça, o mundo passa a ser meu. Nosso, talvez. Gosto de dividir as
coisas contigo. Então vem, traz alegria, traz luz, arrepios, cor e
som. Traz você.
Aí.
17:52 |
Ao
fechar os olhos podia sentir sua mão pesada sobre meus cabelos,
afagando-me as madeixas escuras, com um breve sorriso de canto, que me trazia calma. Você
não estava aqui. Mas havia aquela certeza de que, em algum lugar,
você estaria lá por mim. E isso me bastou. A
certeza da existência de um porto seguro me fazia querer levantar
todas as manhãs. Não que minha vida dependesse exclusivamente de
você agora, mas eu gostava de pensar que sim. Se um dia você for
embora, eu serei forte o suficiente para te esquecer. Mas não vai. Fica aqui. Não aqui. Fica aí. Em qualquer lugar... apenas esteja
por mim.
Era pra ter sido, uma vez...
06:31 |
Já
beirava os trinta, fumante há quinze, ganhara uma tosse seca para o
resto da vida. Os dedos exalando nicotina seguravam mais um cigarro,
carinhosamente, enquanto levava periodicamente à boca. Uma caneca
entre os dedos da outra mão continha dois dedos de uísque. Outrora
estivera cheia. Agora quase vazia, todo aquele etílico fora
convertido por meia dúzia de pensamentos. Fitava o telefone na
mesinha de cabeceira enquanto encolhia as pernas sobre a cama.
Essa
história poderia começar com “era uma vez”, porém...
Era
pra ter sido, uma vez...
Sorrisos,
café, cigarros, ganja, som, praia, sol... Isso, foi, de fato. Ela o
conheceu. Não era o garoto mais vistoso, entre todas as suas opções.
Mas ele a cativou. Não sabia explicar o motivo. Havia ali uma
conexão etérea. Quando olhares se cruzam e deixa uma impressão de
que talvez aquela fosse a pessoa para dividir uma vida.
Teriam
um apartamento qualquer, viveriam de pizza. Videogame aos domingos.
Depois, adotariam uma cachorra chamada Baleia - por causa do livro
Vidas Secas - e ouviriam Beirut em uma tarde de folga qualquer. Vez
ou outra brigariam por ciúmes e fariam as pazes na cama, ao som de
The Doors. A ideia era envelhecer juntos, dividir lembranças e
momentos.
Era
pra ter sido, uma vez.
Se
cada um não tivesse ido em direções opostas.
E
agora ela diluía em sua bebida mais uma desilusão amorosa, pensando
como seria se a sua vida tivesse se cruzado a dele.
Nothing...
17:02 |
Ser.
Eu queria ser. Como uma alma livre, nesse imensa e profunda lacuna. É
um vazio negro, tão escuro que não posso ver um palmo além de meu
nariz. Não tem como saber o que será. Não tem como dizer o que me
espera no segundo seguinte. Só me resta ser. Sem saída, sem
objetivos. Apenas ser. Deixando que o vento leve minha alma em
qualquer direção. Deixando que eu escale altas montanhas e caia em
profundos abismos. Já não sinto dor. Nem prazeres. Apenas esse
vazio negro. O que esperar? O que almejar? Só sei que existo, e
continuarei existindo até não mais saber de nada. E virarei nada.
Querido amor anônimo...
16:16 |
Sinto um aperto no peito, uma vontade de vomitar meus sentimentos e inundar
toda a casa com essa bagunça que está dentro de mim. E depois,
pegar a mochila e o violão e deixar tudo para trás. Seguir minhas
vontades. Atravessaria o país. A pé, se preciso fosse, em busca de
meu amor. Ao encontrá-lo, milhares de beijos e abraços seriam
pouco, para uma vida que planejei ao seu lado. Sorrisos, lágrimas,
surpresas, café e poesia Como em um filme preto e branco, onde nada
importa, se não amor. E mesmo que eu nada tivesse, eu teria você.
Seria o suficiente. E mesmo que nada desse certo, que o mundo
estivesse contra nós, eu sei que ainda teria você. E, tendo você,
eu posso deixar de ter todas as outras coisas, menos o medo de que um
dia não seja mais meu. Esteja comigo, meu querido amor anônimo, e
assim terei a certeza de felicidade.
Epílogos e finais.
08:08 |
Deixei
as venezianas abertas, desejando que um pouco de esperança
adentrasse por aquelas fendas. A caneca vazia jazia sobre a mesa.
Havia tomado até a última gota de desapego. Porém, ainda me sinto
atrelada a você. E o relógio. Bom, acho que tenho uma certa
obsessão por relógios. Ou por tempo. O ponteiro dos segundos
caminhava preguiçosamente, o dos minutos recusava-se a se mover. As
horas... Me recuso a falar das horas. O tempo me castigava o
suficiente. Encarei os retratos na parede, nossos sorrisos enfeitando
nossos rostos. Como se a felicidade pudesse durar pra sempre,
congelada em uma imagem. Melancolia. Não gosto de dias assim. Na
realidade, não gosto mais de nada. Desde que você se foi, perdi a
vontade de tudo. Me sinto cheia... Cheia de vazio. A apatia me
acompanhou durante esses dias. Resumi o mundo ao meu quarto. Vivendo
entre versos e fotografias, com uma única certeza; saudade. Essa
monotonia em que sua ausência me deixou é tão enfadonha. Onde está
meu antidepressivo? Preciso dormir.
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