Epílogos e finais.


Deixei as venezianas abertas, desejando que um pouco de esperança adentrasse por aquelas fendas. A caneca vazia jazia sobre a mesa. Havia tomado até a última gota de desapego. Porém, ainda me sinto atrelada a você. E o relógio. Bom, acho que tenho uma certa obsessão por relógios. Ou por tempo. O ponteiro dos segundos caminhava preguiçosamente, o dos minutos recusava-se a se mover. As horas... Me recuso a falar das horas. O tempo me castigava o suficiente. Encarei os retratos na parede, nossos sorrisos enfeitando nossos rostos. Como se a felicidade pudesse durar pra sempre, congelada em uma imagem. Melancolia. Não gosto de dias assim. Na realidade, não gosto mais de nada. Desde que você se foi, perdi a vontade de tudo. Me sinto cheia... Cheia de vazio. A apatia me acompanhou durante esses dias. Resumi o mundo ao meu quarto. Vivendo entre versos e fotografias, com uma única certeza; saudade. Essa monotonia em que sua ausência me deixou é tão enfadonha. Onde está meu antidepressivo? Preciso dormir.

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Infinito.

Ficou na janela um tempão. Passou gente, passou carro, só o tempo que não. Nem a saudade que assolava o seu peito. Contentou-se em ficar ali, estática, como uma rosa enraizada em um jarro distante da luz. Sem esta luz, não podia crescer, nem estender os seus galhos, nem ao menos fortificar os seus espinhos. Murchou, ficou marrom e as pétalas caíram. Nem água quis. E ela permanecia na janela. Passava gente, passava carro, mas os minutos congelaram-se no infinito.

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It's just that it's delicate,


Deitou-se tarde, naquela noite. Ainda assim, não tinha sono. Levantou-se por algumas vezes, tomou água e leite quente, comeu alguns biscoitos e voltou para a cama. Duas, duas e meia. Não dormiu. Era uma espécie de angústia, que parecia não querer passar. O telefone tocou, era ele. Coração agrediu violentamente a caixa torácica. Atendeu, tentando manter a voz firme. Eles conversaram sobre os dia, sobre filmes, sobre livros e desenhos animados.

- Senti saudades. - Ele disse. Ela tremeu. Era só disso que precisava saber, para fazer com que qualquer coisa valesse a pena. Era isso que precisava ouvir, para fazer o desfecho de seu dia. Foi então que soube que seu problema nunca foi insônia, era apenas saudade. Que ele era a sua doença e sua cura. Ela soube, desde então, que precisava dele, nem que seja para alimentar esperanças idiotas. Ele fazia planos para os dois, do outro lado da linha, ela só se preocupava em ouvir a sua voz e perder-se em devaneios. Imaginava a todo segundo o momento em que eles se veriam. E, mal podia esperar pela sensação daquelas braços envolvendo-a. Ansiava por um beijo, em que sentiria aquele gosto de nicotina e cafeína. Se alguma vez ele errou, ela nem lembrava mais. Dormiu bem o restante da noite, não precisou de Paroxetina. A única “ina” que importavam agora, era a nicotina e cafeína de seu beijo, que era o melhor ansiolítico que tivera o prazer de experimentar.

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Às vezes, queria entender esse seu coração turista. Queria algo concreto, algo em que eu pudesse me apoiar, nesse mar de sentimentos. Estou cansada de ficar flutuando, perdida. Eu posso ver a tempestade se aproximando, cada vez mais. Tenho medo. E não importa o quanto eu nade, eu nunca consigo chegar a praia. O mar está ficando agitado, as ondas se quebram sobre mim, partindo cada fio de esperança aos quais me segurei por todo esse tempo. A cada segundo, fica mais difícil nadar contra a maré de solidão. A cara respiração, posso sentir a água invadir os meus pulmões, tirando-me um pouco de vida. Eu preciso de algo para me apoiar, algo que me faça seguir em frente. Preciso saber se seu amor é real, preciso que seja. Preciso de você, para chegar a praia.

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Caleidoscópio.

O céu está cinza, morto, doentio. Mas ainda assim, é lindo. O céu está da cor dos teus olhos. O céu é seu, é meu, é nosso. E tudo é nosso. Todas as coisas somos nós. Só eu e você, nesse caleidoscópio de sentimentos. Essas coisas e amores, girando e girando. E eu me perco, tonta. É dor, é deleite. E, vertiginosamente, eu sinto. Mergulho na densidade dos nossos laços e me afogo em você. A insanidade corrompe as minhas entranhas fazendo de mim mais sua. Que a frugalidade tome de conta de tudo nos momentos mais ébrios de nosso amor. Que o sentimento perdure sem sentido, como minhas palavras. Pois só assim sou capaz de compreendê-lo.

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Sunday morning, rain is falling...


Havia uma coisa triste sobre domingos. Talvez fosse saudades da semana anterior, que terminou no sábado, ou talvez fosse apenas uma melancolia natural, que viesse acoplada ao ar do domingo. Não sei exatamente como explicar, mas talvez eu pudesse simplesmente tirar uma ou duas horas de todos os meus domingos para chorar. Sim, chorar. Por nenhum motivo aparente, só por causa daquela velha tristeza dominical que eu respiro. E eu me pergunto: se não existisse domingo, para qual dia seria transferida essa consternação? Quarta-feira, talvez. Por qual motivo, eu não sei. Mas existem muitas coisas na vida que não entendo a razão. Uma delas, é esse desalento.

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Quiet heartbeat.



A ausência de sonhos pode ser o pior dos vazios. Não tem como viver sem ter nenhuma expectativa. Todos os dias eu acordo e repito aquela velha rotina, desejando profundamente que chegue o final do dia e eu possa dormir novamente. E, lá se vai mais uma noite sem sonhos. É como se fosse simplesmente um ensaio para o dia em que você não mais acordará. E quando esse ciclo vicioso vai acabar? Quando vai aparecer algo para quebrar essa monotonia que me destrói a cada segundo? Não seria mais fácil dormir para sempre? Eu preciso de algo que me faça me sentir viva. Nem que seja por um momento.


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